domingo, 10 de dezembro de 2017


HISTÓRIAS PARA SEREM JUNTADAS NUM ESCRITO MAIOR

01.) GAÚCHO
Lá no hospital onde minha sogra está internada já há quase 60 dias, a gente vai se familiarizando com tudo no seu entorno. As pessoas já passam a te conhecer e te cumprimentam na passagem. De todos os que lá convivo, um me chama a atenção: o Gaúcho. Um guardador de carros ali das cercanias da Beneficência Portuguesa. Seu horário de atuação é das 16h em diante e ele fica por ali olhando os carros de muitos, enquanto esses vão permanecer horas junto dos seus. Não existe dia que, na saída, ele não se aproxime, para em primeiro lugar, olhando para nossa fisionomia, dizer palavras de incentivo, alegrando o diálogo. Se mostra preocupado quando saímos sorumbático e olhando mais pro chão do que para o alto. Dia desses um de nós chegou atrasado e não encontrando lugar deixou chave do carro, tudo em suas mãos e entrou correndo. Na volta, horas depois, o carro estava num dos melhores lugares, bem defronte a entrada principal e ele ali como cão de guarda zelando por tudo. Sua história igual a de tantos outros, os que moram longe (ele não mora na rua), tem uma família desestruturada e faz dali o seu ganha pão. Virou referência no lugar, pela simpatia, um sotaque gostoso de bater papo. Na saída, todos lhe trazem alimentos, daqueles entregues nos quartos do hospital e ele, quando sua fome já está saciada, distribui entre os demais. O vejo ali e constato, ninguém trabalha de graça nas ruas de qualquer cidades brasileira. Todos os espaços são delimitados e duramente disputados. Para conseguir um espaço como aquele, tenho certeza, ele não foi chegando e ali atuando. O bicho pega nas ruas e olhando para os lados, só de ver que cada pedaço, bem esquadrinhado pelos que ali atuam, tem uma pessoa e nenhum invade o quadrado do outro, enxergo nisso uma extensão de tudo o mais nesse mundo capitalista onde vivemos. Gaúcho é a simpatia em pessoa, mas para ali estar, deve ter passado poucas e boas. E ele, nos reencontros diários não transparece nada disso e quando nos vê já vem de braços abertos e o papo rola, alegrando nossa ida pra casa.

RETRATOS DE BAURU (209)


GREIFO E OS ARTISTAS GANHANDO A VIDA NAS RUAS DE BAURU
A minha preocupação maior não é se os enfeites do Calçadão da Batista vão estar nos trinques, renovados e reluzentes. Sei que nada foi feito, mas como vejo pouca coisa sendo feita entre tantas outras mais necessárias, isso é só mais um dos tantos detalhes de uma questão de ampliado abandono. Neste ano, não por decisão espontânea, mas por necessidade de reduzir gastos, estarei poucas vezes neste local, comparado com os anos anteriores. Presentes, ora presentes, creio ninguém ganhará nenhum de minha pessoa. Darei fartos abracitos (sinceros, necessários e cheios de calor humano), mas ficarei restrito neles. O que me interessa mesmo nas cercanias do centro da cidade, na sua região do comércio mais pujante é ver como se safam os pequenos, aqueles que tentam com todos seus esforços conseguir algo para ter algo digno no Natal e na passagem do ano. Com tudo o que aconteceu ao país, não tenho motivos para sair distribuindo sorrisos, pois ando triste, macambuzio, sorumbático. São tantas coisas. Consegui concluir meu mestrado (ufa!, um alento), o golpe e sua crueldade se amplia, logo a seguir minha sogra adoeceu e continua no hospital, as vendas de meu ganha pão, que insisto em continuar fazendo para pagar minhas contas, miaram e vejo que esse clima triste não é só meu. Mesmo não me faltando nada, continuo numa confortável situação diante de tudo o mais à minha volta, essa degradação dos tempos atuais me incomoda. Ver as pessoas em situação degradante é para mim uma espécie de tortura. Eu não consigo ser feliz vendo tudo no entorno se desmoronando. Saio às ruas hoje à procura de uma pessoa em especial. Queria escrever dele em específico (explico o motivo no final do texto) e ao fazê-lo, falar de todos na mesma situação, dando o seu jeito, dignas tentativas de dar prosseguimento às suas vidas com alguma dignidade, sendo Natal, Ano Novo ou somente tendo que, a cada novo dia, sair à luta para ter o que comer. Na praça mais famosa da cidade, muitos deles e esse, novo por lá, diariamente expõe sua arte como forma de sobrevivência. Valorosa pessoa.

JOSÉ GREIFO, 46 anos é um artista na acepção da palavra, desses que com um lápis, pincel ou caneta colorida nas mãos arrasa e mostra a que veio. Sua história começa no estado do Paraná, onde nasceu, mas veio para Bauru muito cedo, ainda moleque. Pai sapateiro cresceu nas ruas da cidade e foi aluno do Aucione, que o iniciou na arte do desenho. Pessoa por demais conhecida nos meios gráficos e do traço, ilustrador de reconhecida fama, já tendo atuado nas hostes do Jornal da Cidade em duas oportunidades. Tempos depois comandou junto com o amigo Claudinei, tudo o que saia impresso lá na Gráfica Cartões & Cia. Domina as técnicas de editoração e de colorir eletronicamente ilustrações e nos últimos tempos está sempre sentado lá na bancada do ateliê do Leandro Gonçalez, ali na Bandeirantes. Dá aulas, ensina e desenha a quatro mãos muitos do HQs que saem daquele lugar para encantar admiradores. Domina tudo o que tenha o traço como meio de campo, mas como nada é perfeito, deu uma desacertada, descompensada na vida e hoje, tentando se recolocar no mercado, corajosamente, leva diariamente para a praça Rui Barbosa seu aparato e ali faz caricaturas a preços inimagináveis. Senta junto aos artesãos, traz consigo uma pasta com folhas, lápis de várias tonalidades, três banquinhos de plástico e uma placa onde se lê: “Retratos a Lápis”. É seu ganha pão e quando espalha algo já feito, difícil não atrair a atenção e deixa de estar desenhando alguém. O desenho sai muito rápido, em questão de dez minutos a meia hora, dependendo da pressa do freguês e do valor combinado pelo serviço. A força que ele precisa de todos nós é para que, consiga dar logo a volta por cima, pois qualidade e currículo não lhe faltam. Que o cantinho ali ao lado da igreja possa ser algo breve em sua vida e logo volte a desenhar em lugares onde possa ser valorizado a contento.

OBS.: O bloco farsesco, burlesco e algumas vezes carnavalesco, o Bauru Sem Tomate é MiXto escolhe a cada ano um desenhista ligado à Bauru e ele faz a estampa que vai ser a marca, não só da camiseta, mas da festa toda envolvendo a passagem do furdunço pelo Calçadão. Em cinco desfiles já tivemos a honraria de ter ao nosso lado o Leandro Gonçalez, o Fausto Bergocce, o Junião, o Maringoni e neste ano o Fernandão. E o escolhido para fazer a arte em 2018 foi o consagrado JOSÉ GREIFO. Em breve teremos o tema da arruaça e antes do final do ano a arte já estará espalhada cidade afora. De uma coisa tenho certeza e Greifo concorda: vai dar o que falar.

Artistas da Vida - https://www.letras.mus.br/gonzaguinha/46264/
Gonzaguinha
Vozes de um só coração
Igual no riso e no amor
Irmão no pranto e na dor
Na força da mesma velha emoção
Nós vamos levando este barco
Buscando a tal da felicidade
Pois juntos estamos no palco
Das ruas nas grandes cidades
Nós, os milhões de palhaços
Nós, os milhões de arlequins
Somos apenas pessoas
Somos gente, estrelas sem fim

Sim, somos vozes de um só coração
Pedreiros, padeiros, coristas, passistas
Malabaristas da sorte
Todos, João ou José

Sim, nós, esses grandes artistas da vida
Os equilibristas da fé
Pois é!
Sim, nós, esses grandes artistas dessa vida

Bauru SP, sábado, 09 de dezembro de 2017.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

COMENDO PELAS BEIRADAS (48)


A IDÉIA DA ÁRVORE SOLIDÁRIA ESTÁ SE MULTIPLICANDO - DAS MUDAS MAIS SIMPLES VICEJAM GRANDIOSAS FRUTAS
Essa é só uma delas, mas outras tantas podem ir surgindo aqui e ali, vicejando e trazendo a alegria para muita gente que nem pensa em ganhar um presente neste final de ano. A intrépida e desconsertante Tatiana Calmon bolou mais uma modalidade de solidariedade na recepção do Sindicato dos Ferroviários, na rua Cussy Junior nº 3-40, seu local de trabalho. Sua história é sempre recheada de hilariedade, pois viu um galho numa manhã lá nas imediações das Nações, abandonado após poda feita pela Prefeitura. Juntou o mesmo no braço e o trouxe meio que arrastado, segurando fora do carro, desvindo de tudo o mais no caminho, até o local onde está promovendo mais uma de suas maravilhosas aprontações.

A ideia é ótima e vai se concretizando pela divulgação via redes sociais. A árvore está lá, ainda pelada, mas por pouco tempo. Cada um que traz um presente, principalmente brinquedos (em bom estado, viu!), tem direito a uma foto e colocar uma bola na arvore. As entidades ou bairros que receberão os presentes são cadastrados já pelos vários programas sociais onde ela e suas amigas estão inseridas, conhecidos da maioria da comunidades que nos cerca. Eu passei por lá, gostei da ideia e estou dando meu quinhão de contribuição para que, num curto espaço de tempo, um montão de brinquedos possa ser distribuido cidade afora. A grande vantagem é que em campanhas dessa natureza não existe, como se vê por aí, intuíto político, eleitoreiro e de alavancar essa ou aquela pessoa. O negócio lá é bem simples, reto e direto, sem delongas, tudo pela solidariedade.

Eu e Ana já levamos algo, coloquei a bolinha vermelha na arvore e tirei foto. Tatiana promete qapoiar, incentivar e divulgar outras iniciativas similaresq, pois o que é bom deve mesmo ser espalhado com o vento, mais e mais. Essa é daquelas coisas onde faço questão, não só de escrever, mas dizer em alto e bom som: felicidade é ajudar sem buscar nada em troca. Vamos nessa?


OUTRAS COISAS:
1.) O VALOR DO TRABALHO - A gente paga uma fortuna por uma casa nova, mas na hora de pagar o pintor que vai executar um serviço dentro desta casa, daí é um choro só e o pagamento sai remediado. Aqui um chute bem dado no nosso saco. Clique no link a seguir: https://www.facebook.com/canal.brasil/videos/1586004288109026/

2.) APOIAR O QUE AINDA NOS RESTA - O porque da gente estar junto com uma publicação como Carta Capital, exatamente num momento onde a pluralidade de opiniões não é mais respeitada, pois QUASE tudo converge para uma opinião de mão única. Eri Nepomucemo, um jornalista de velha cepa, dá o seu recado a respeito e eu compartilho. Clique no link a seguir: https://www.facebook.com/CartaCapital/videos/1329653247140260/

3.) O MESMO LIVRETO EM TODO LUGAR: HONDURAS, PARAGUAI, ARGENTINA, BRASIL...
Criminalização dos movimentos sociais, perseguição atroz aos povos originais, culminando com um Judiciário á serviço dos donos do poder, do neoliberalismo, do rentismo e das forças conservadoras. A contrução não ocorre só aqui no Brasil, mas por todos os lugares onde exista possibilidade do povo ter seus reclamos atendidos. Tudo à serviço do que de pior temos, uma ínfima e perversa minoria apunhalando todos os que defendem algo para o povo. Detenções irregulares, verdadeiras barb aridades ocorrem por todos os lugares. Uma eleição faudada em Honduras, um núnelo universitário detido aqui no Brasil na forma mais perversa e na Argentina o pedido de prisão de Cristina Kircner, pelo simples fato de ser a voz mais altaneira de uma oposição gritando contra as injustiças. Percebam isso e resitamos...
1.) https://www.pagina12.com.ar/81275-preocupacion-mas-alla-de-…
2.) https://www.pagina12.com.ar/81151-para-cristina-desde-brasil
3.) https://www.cartacapital.com.br/…/a-nova-direita-conservado…
Isso tudo não nasceu e vicejou assim do nada, entendamos como tudo tem uma mãozinha dos EUA, sempre por detrás de impedir qualquer tidpo de avanço da soberania dos países latinos.

4.) CUBA É O PAÍS MAIS INTERESSANTE DO PLANETA
https://www.facebook.com/nocautefernandomorais/videos/513082409078947/
Fernando Morais foi lá palestrar e lançar um livreto. Vê-lo falar da ilha é pra inflar a esperança: "Também quero...".
HPA - aceitando aqueles que propuseram me pagar viagem só de ida. Será que ainda mantém o dito? Iria, com louvor.Clique no link a seguir: https://www.facebook.com/nocautefernandomorais/videos/513082409078947/?fref=mentions

5.) NO EXATO MOMENTO EM QUE ESCOLAS SUGEREM O ENSINO DA "HISTÓRIA" SEGUNDO SUA VERSÃO DOS FATOS, REVERENCIO UM VERDADEIRO HISTORIADOR, FALECIDO RECENTEMENTE: LUIZ ALBERTO MONIZ BANDEIRA
Deu hoje no site do melhor jornal da América Latina, o argentino Página 12, em sua seção Contra Capa.Clique no link a seguir: https://www.pagina12.com.ar/80703-un-maestro-de-la-vida-y-de-la-historia

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

AMIGAS DO PEITO (140)


A TRISTEZA ESTAMPADA NAS FACES DE ILDA E DRI – A BANCA DA GETÚLIO FECHA AMANHÃ
Está fecha amanhã, sexta, 08/12.
Chego de Sampa e passo na banca da Ilda, ali junto ao verdadeiro e original aeroporto de Bauru, debaixo da caixa d’água do DAE, na avenida Octávio Pinheiro Brizola. Ela não está, vejo se chegou a revista Piauí do mês (compro revistas em duas bancas na cidade, pouco numa, pouco noutra), pois já a havia visto nas bancas da capital, mas deixo sempre para comprar com os resistentes jornaleiros daqui. A revista está chegando e Ilda havia saído para resolver problemas. Pergunto por ela e ouço algo:

- Ela está triste. Não sabia?

- Não sabia o quê? Que aconteceu? – pergunto.

- O sr não sabe? Ela vai ter que fechar a banca de revistas lá na Getúlio Vargas, a junto do Confiança Max. Foi até onde deu e agora paga para mantê-la aberta. No máximo sexta entrega o ponto. Está correndo para fazer as devoluções.

Minha reação foi a de perguntar pela sempre simpática DRI, a simpática funcionária daquela banca, uma espécie de companheira de todas as horas, fiel escudeira de Ilda.

- E o que irá acontecer com a Dri? – pergunto.
Dri, 13 anos e desempregada.


- Também não sabemos. Ilda está até mais triste por causa dela. Não tem como abriga-la aqui e creio que já esteja até procurando outro emprego.

O que dizer, além disto, aqui relatado? Nada. O curto diálogo diz tudo. O que acontece com essa banca é espelho de uma avalanche de portas sendo fechadas país afora. Com esperanças praticamente zeradas, país na lama, bancarrota total pro povão, pro trabalhador, pra quem depende de seu pequeno negócio para sobreviver. Se tudo estava apertado, agora tudo anda pela hora da morte. Ilda jogou a toalha e fecha uma de suas bancas e deve estar a coçar muito a cabeça, pois não sabe quanto tempo mais resistirá com a banca lá do Aeroporto, sua fonte de renda.

Vou ver a DRI, Adriana Marques, 13 anos trabalhando ali na Getúlio, numa banca funcionando no mesmo lugar há mais de 20 anos. Ela ao me ver e dos motivos de ali estar cai em prantos. Choramos juntos e me diz:

- Já penso nos bicos durante a semana e se Ilda precisar, continuarei lhe ajudando aos sábados e domingos. Mas não dava mais, não imagina a tristeza de ficar aqui o dia todo e vender quase nada. A gente chega até a pensar ser incompetente.

Passa um cliente e também lhe dá apoio. Conversam sobre a decisão do fechamento e por fim, antes de ir, lhe diz:
Está permanece aberta.


- Torço para que daqui alguns meses, te reencontre e esteja em algo melhor. Tem males que vem para o bem. Você vai vencer.

Escrevo delas, de Ilda, Dri e desse negócio das bancas espalhadas na cidade e ainda abertas. A defronte a Prefeitura voltou a fechar, desta vez em definitivo e a do Wal Mart não mais reabrirá. Impossível, mesmo com todos os problemas do mercado de revistas e jornais, com queda acentuada de vendas e, principalmente de leitura do brasileiro, não relacionar com este triste momento do país, vivendo um de seus piores momentos. E mesmo diante da hecatombe nacional provocada pela chegada desses insanos golpistas, rentistas e tudo fazendo por uma já abastada minoria, eles insistem, na maior cara de pau em continuar apregoando que tudo está sendo sanado, resolvido. Vivem esses em que país? Governam para quem mesmo?

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

CENA BAURUENSE (167)


CHEGO DE SAMPA 3H30 DA MANHÃ, RODOVIÁRIA DE BAURU E LÁ...

O cenário do terminal rodoviário de Bauru é o do desalento. Um lugar que já foi mais viçoso, porém hoje, não vive seus melhores dias. Diria, piores. Os motivos são muitos. Chego por volta das 3h30 da madrugada passada e a primeira impressão é a do abandono, sem viva alma e tudo na penumbra. Tudo muito escuro. Desço a rampa e já no seu pé, observo dois homens sentados na escada ao lado da banca de revistas. Estão acordados, ou aparentam estar. São os tais dignos representantes dos tantos mortos-vivos perambulando pela aí, sem eira nem beira. Ao verem Ana sacando um cigarro da bolsa, logo a rodeiam. Fico na espreita. Ela dá o cigarro, mas os vejo insistindo com algo mais. Pedem dinheiro e ela nega. Não reagem, não regateiam, voltam a sentar e fumam ali mesmo. Não existiu violência, aliás a violência é eles estarem ali, naquela hora da madrugada, acordados, sonolentos, sem banho e pessimamente alimentados. Vivem da perambulância pelos espaços permitidos de se apoiarem e encostarem o corpo, dentre os poucos navegando aberto durante a noite toda na adormecida cidade.

Olho para dentro do vidro de uma espécie de sala particular para os clientes do Fran’s Café e tudo meio na penumbra. O caixa fica aberto a noite toda e lá dentro, algumas mesas ocupadas, poucos a conversar. Numa delas, uma pessoa desabada, dormiu sentada e apoiou o corpo na mesa. A luz é fraca, tornando o ambiente algo um tanto noir e triste. Detesto luz fraca, ruim em todos os aspectos, principalmente num lugar daqueles e a mesma coisa num lar. Ninguém consegue ler num lugar desses. Falta só fumaça para completar a tristeza. Borrachas são postadas cruzando o espaço central da gare. Em instantes serão ligadas e o lugar será limpo, higienizado, lavado. Ainda bem. Talvez o ar de limpeza mude o aspecto do lugar.

Seguimos caminhando até o ponto do táxi e naquelas cadeiras dispostas na entrada, quase ao lado da guichê onde se paga o estacionamento, vejo muita gente ali sentada. Muitos passam a noite ali, alguns por perderem o último ônibus e aguardarem o primeiro da manhã, mas triste é notar os que para ali se dirigem para dormir sentados, sem terem para onde ir. A TV permanece ligada o tempo todo, num filme que, acredito, ninguém consiga assisti-lo inteiro. Corpos arriados nas cadeiras e algumas pessoas em pé, circulando não sei fazendo o que, de um lado a outro.

Numa dessas cadeiras vejo uma pessoa conhecida. Não sei o que fazer, ele ali acordado naquela hora da noite, olhos abertos, a pasta de trabalho de um dos lados, nenhuma mala. Ele não está ali aguardando viajar, nada disso. Seu destino é ali permanecer sentado, meio dormindo, meio acordado até o dia clarear, levantar e pensar no que poderá fazer durante o dia. Acho que ele não me viu. Já tendo dormido no ônibus, sigo com minhas malas, voltando pra casa após uns dias num hospital paulistano. No táxi, comento com minha cara metade do ocorrido. Nada fiz, segui adiante, fiquei inerte diante da cena. Ele não é meu amigo, mas conhecido de longa data, amigo de muitos amigos e só de saber ser este o lugar que lhe resta para passar suas noites, deito e não consigo mais dormir. Sua fisionomia não me sai mais da cabeça. Outros tantos como ele na mesma rodoviária, sentados e sonolentos, com a mente não se sabe aonde.

Ainda na rodoviária, segui até o ponto de táxi e ao passar por um senhor o cumprimento. Ele automaticamente se levanta e vem em minha direção. Ameaça contar sua história, diz ser de longe e da falta de grana para completar a viagem, mas é impedido pelo taxista, que o afasta com palavras enérgicas. Ele segue seu caminho de cabeça baixa, eu adentro o táxi e ali ouço outra versão dos fatos, a de alguém ali trabalhando e convivendo com a transformação do que já foi um dia o terminal e no que é hoje. Lhe digo: “O país também já foi uma coisa, hoje é outra”. Percebo que age intempestivamente até por não saber como tratar com essa gente toda perdida por ali. Crê que aqueles atrapalham a freguesia e conta a história da moça que desceu também do mesmo ônibus e chegou no ponto sozinha antes da gente. “Não fosse os taxistas lhe protegerem, certamente seria roubada. Um segurança que ninguém sabe onde se encontra e só aparece no clarear do dia. O lugar é perigoso para todos”, diz.

Não busco culpados ou inocentes, pois certamente todos os personagens ali daquele cenário noturno de Bauru sejam, até sem o saberem, inocentes. Com isso tudo na cabeça, mais aquilo tudo que trazia comigo neste retorno para minha aldeia, abro a porta de casa, tomo um banho e tento dormir. O sono não vem, levanto e escrevinho esse texto, aqui agora escrachado, divulgado e compartilhado.

OBS.: As fotos são meramente ilustrativas e foram giletadas da internet.

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

MEMÓRIA ORAL (219)


ELA SÓ QUERIA UM BUMBUM MAIS BONITO
Renatta Velask é uma mulher trans da cidade de Lins, estado de SP, já tendo ido duas vezes para a Europa, principalmente Lisboa, em busca de sua realização no que escolheu fazer para viver. Foi e voltou, fez sucesso e estava nos preparos para outro retorno, procurando embelezar (modelar) cada vez mais seu corpo, o de uma jovem sonhadora na faixa dos 20 anos de idade. Como quase todas, existindo a disponibilidade financeira vão lá e fazem, ou seja, caem novamente no conto dos implantes de silicone. Muitas se dão bem, mas desta vez Renatta se deu mal. Leiam abaixo o relato de sua irmã, Amylee Velask, vivendo hoje em Lisboa, Portugal, que inicialmente foi publicado no seu facebook, mas por causa da citação do nome do aplicador, inclusive com fotos do seu RG, foi sacado por ferir as normas de publicação. Omito alguns dados neste sentido (cito só as iniciais), mas mantenho o texto quase inteiro no original, com pequenas correções, pois antes de ser sacado já contava com mais de 200 compartilhamentos e sua repercussão era enorme, principalmente com o intuito de esclarecer como se processam esses implantes no país, a maioria de forma clandestina e sem nenhuma segurança:

“CUIDADO COM SILICONE INDUSTRIAL - Bom vamos lá! Peço a ajuda de todos os meus amigos e conhecidos para que compartilhem essa publicação. A um mês e meio atrás minha irmã Renatta Velask decidiu retocar o bumbum com silicone industrial, como ela já havia feito antes e acabou por fazer novamente com a mesma pessoa o cidadão R.C.S. Ele é bem conhecido no meio gay, então ela ligou como de costume no local onde sempre comprou o produto, porém não tinham em estoque. Ela por sua vez falou com o cidadão a respeito e ele por ser um “profissional” deveria ter alertado ela para esperar chegar o produto que usavam de costume, mas não, ele por ter olho grande e pela ambição do dinheiro indicou a página do site MERCADO LIVRE como referência alegando que, SILICONE 1000 (o indicado para esse tipo de aplicação) era tudo igual. Ela por sua vez acabou comprando o produto, ele chegou e aparentemente parecia ser normal como os outros. Começaram o procedimento, ela relatou que já na aplicação estava queimando muito, mais do que nas outras vezes. Ele disse que era normal porque o silicone dela estava velho. Aí fez um lado e logo após algumas horas a bunda dela ficou toda na carne viva com hematomas horríveis. Mesmo assim, esperaram algumas horas e prosseguiram para o outro lado, onde aconteceu o mesmo. E ele dizendo estar tudo normal, que a pele tinha esticado muito, problema era superficial, etc. Ela estava bem, não sentia nada, ele então pegou o dinheiro e no outro dia foi embora pra Belém do Pará. Passou 1,2,3 dias e daí ela começou a ter febre interna suava muito, não comia e aguentando calada a dor, até que não aguentou mais e foi para hospital. Chegando lá já era tarde de mais, a bunda dela estava todo necrosada, carne e tecido da pele. Enfim ela já passou por cinco cirurgias no total para a retirada da infecção, ficou três semanas em coma e agora que estava boa teve uma parada cardíaca. Devido ao tempo que ela passou inconsciente, sem vida, tentando ser reanimada, ocasionou lesão no cérebro.
Os médicos acham que faltou oxigenação e ela está parcialmente paralisada, imóvel, sem enxergar e sem oxigenar o cérebro. Os médicos ainda não sabem exatamente o que houve, mas o estado da minha irmã e muito grave. Por isso hoje peço a todos que compartilhem isso, por favor, pra que outros na mesma situação busquem outros métodos mais seguros."


Amylee veio ao Brasil para acompanhar a irmã, ficou trinta dias em Lins, mas teve que voltar pra Lisboa de onde acompanha o desenrolar do problema. Sua luta neste momento é por justiça. Está ciente da opção de sua irmã, optando pela colocação de silicone por meios clandestinos não é recomendável, mas sabe também que, isso não isenta o aplicador. Para ela, a pior pena que sua irmã poderia ter, já teve e desta forma segue lutando para que o aplicador do produto, explique como age isso perante a lei vigente.

Numa postagem recente reafirma isso da seguinte forma e todo em letra maiúscula: “GENTE O QUADRO CLÍNICO DA MINHA IRMÃ É MUITO SÉRIO. NÃO QUERO ESTAR COMENTANDO DETALHES, POR DESCRIÇÃO MAS SÓ PEÇO QUE CONTINUEM ORANDO POR FAVOR. EU AGRADEÇO DO FUNDO DO MEU CORAÇÃO A TODOS, NÃO ESTÁ SENDO FÁCIL PARA GENTE, MUITO MENOS PRA ELA. É UMA SITUAÇÃO MUITO INDESEJÁVEL VOCÊ VER SUA IRMÃ QUE VIU CRESCER EM CIMA DE UMA CAMA E NÃO PODER AJUDÁ-LA. DENUNCIARAM MEU POST, POIS EU ESTAVA INFRINGINDO AS REGRAS DO FACEBOOK EXPONDO OS DADOS DO DESGRAÇADO QUE ACABOU COM A VIDA DA NOSSA RENATTA, MAS EU JUREI QUE VOU FAZER JUSTIÇA, MESMO SABENDO QUE MINHA IRMÃ TINHA PARTICIPAÇÃO NA CULPA. MAS É MINHA IRMÃ E EU E MINHA FAMÍLIA ESTAMOS SOFRENDO MUITO COM TUDO O QUE ESTÁ ACONTECENDO”.
O ocorrido pode ser considerado como algo corriqueiro na conduta de como ocorrem a maioria da colocação dos silicones nos corpos das travestis país afora. A travesti, ao buscar modelar seu corpo, faz tudo sem nenhum acompanhamento médico. Existe entre elas uma rede de informações, de uma para outra, com informações de como fez algo e sendo bem sucedido, indica para as demais. Isso corre de boca em boca e poucas escapam de já ter feito algo de outra forma. Até os medicamentos farmacêuticos básicos são indicados desta forma, uma confiando na outra. Neste ambiente proliferam pessoas, se dizendo profissionais, especialistas em certos procedimentos. Com muitas tudo deu certo, porém com outras tantas ocorrem erros e histórias como a ocorrida com a Renatta não são mais novidade. E tudo isso está disseminado neste meio social, porém na repetição de histórias como essa, algo precisa ser feito, primeiro para conscientização coletiva, depois buscar e também espalhar entre todas os lugares onde esse tipo de procedimento ocorre de forma legal e segura. Eles existem e na divulgação dos seus nomes, o fim do risco a que todas estão submetidas.

No dia 05/11/2016 em seu facebook, Renatta publica pensamento num quadro, desses de como seria ótimo se pudéssemos voltar no tempo e recusar de fazer certas coisas: “Se eu pudesse voltar no dia que te conheci, ficaria em casa”.

Obs final: Renatta continua hospitalizada, inconsciente e com todos à sua volta cheios de esperança. Sua irmã, Amylee quer espalhar sua história e as fotos do estado dela no hospital, não só para sensibilizar, mas também para buscar solução. Tentou contato com a imprensa, tanto local, como regional, inclusive a TV em busca de divulgação, mas não encontrou espaço. Ao tomar conhecimento da história, creio que o relato aqui feito sirva para espalhar o ocorrido e assim, espalhar como o vento uma história não merecendo mais ser repetida.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

DROPS - HISTÓRIAS REALMENTE ACONTECIDAS (150)


DUAS HISTÓRIAS OUVIDAS NUM CORREDOR DE HOSPITAL*
* Escritas do mesmo jeito que ouvidas e transcritas aqui com alguma correção.

HISTÓRIA 1 – “EXEMPLO DO PORQUE ODEIO PAULISTA”
Caso ouvido ontem à noite, entre muitos desabafos, por uma muito bem resolvida carioca. Ela consegue entrar na agência bancária, exatamente às 15h59 e por causa disto, sente-se vitoriosa. Isso até o momento em que visualiza a imensidão da fila diante de somente dois caixas abertos. O tempo rola e um deles fecha. Perturbada, sai do último lugar na fila e vai até o funcionário já fechando sua gaveta: “Poxa, se ficar aberto, todos ganharemos tempo. Por que fechou justo agora?”. Sua resposta: “Nada posso fazer, recebo ordens, fale com o gerente, ele está logo ali naquela mesa”. Ela vai até lá e o encontra batendo um amigável papo, temas variados com uma provável cliente, tipo dondoca. Espera para ser notada e como isso não ocorre, pois o mesmo não se digna a perceber sua presença. Pede licença, explica delicadamente a situação e ouve deste: “Aguarde na fila, verei o que posso fazer”. A fila continua andando muito devagar e o gerente não move uma palha. Ela volta até sua mesa e diz: “Continuo esperando sua solução ali na fila, como me pediu”. Passam mais alguns minutos e nada, tudo como dantes. Não se aguenta e volta para diante do gerente, ainda no papo com a mesma provável cliente e repete exatamente a mesma fala anterior, dessa vez sem aguardar resposta. Volta para seu lugar na fila, passam mais alguns minutos e percebe o gerente chamando um funcionário e a apontando. Esse se dirige até ela e diz: “Queira me acompanhar, vamos te atender no caixa de clientes especiais”. Indignada ela se recusa e o faz em alto e bom som. Todos na fila presenciaram tudo, desde o início, da primeira reclamação até o desenlace, com a recusa em aceitar ter somente o seu problema resolvido e não o de todos. Ninguém havia movido uma só palha de solidariedade pelo que fez, nem quando rejeito a solução sugerida pela gerência. Bem humorada, conclui da seguinte forma o ocorrido: “Odeio paulista por causa de soluções deste tipo, também essa passividade diante das situações. Carioca resolve tudo de outro jeito”.

EXEMPLO 2 – A SENSIBILIDADE E A INSENSIBILIDADE NO TRATO COM O SEMELHANTE
Um casal homoafetivo, anos de convivência e ambos com AIDS, administrada com os devidos medicamentos. Por desleixo de um deles, deixa de tomar os remédios por certo período, sua imunidade fica mais baixa e contrai algo novo, um fungo na cabeça. Em questão de poucos meses, surge a perda da razão. Ficou abobado e tem início intenso tratamento médico, ainda coberto pelo seu plano de saúde. Procura um advogado, o que me faz esse relato numa sala de espera de outro hospital paulistano. Ele entra na história e diz que o hospital quis encerrar o atendimento e só não o fez por causa de sua ação junto ao Ministério Público. A internação é prorrogada, sempre sob ameaças: “...só até a semana que vem”. Esse advogado descobre algo mais, o outro profissional que inicialmente havia atendido seu agora cliente, havia conseguido a aposentadoria do hoje adoentado cidadão. No contrato uma cláusula, a de que nos primeiros doze meses do recebimento, 30% do valor seria repassado ao advogado. Essa a paga. Um percentual aceitável, mas não para um prazo tão dilatado. Falto sensibilidade humana, algo indagado na conversa: “Ainda existe isso nas atuais relações?”. Ele me diz que sim, pois assim age com seu cliente. Entrou com pedido de curatela junto ao Fórum, para que os valores bloqueados da aposentadoria possam ser sacados pelo sadio companheiro, de forma temporária e exclusivamente para cobrir as despesas pós-doença. A burocracia retarda uma plausível solução. Juízes pedem documentos e mais documentos, enquanto isso, um dorme diariamente ao lado do outro. Um deitado na cama do hospital e o outro sentado numa simples cadeira, meses a fio, desconforto mais do que evidente. Enquanto a solução na sai, um come da comida do hospital e o outro, só quando pode e lhe sobram recursos. Todos continuam aguardando a canetada final do juiz, a decisão do plano de saúde em continuar cobrindo as despesas e o hospital em manter o paciente.

OBS.: As duas fotos são meramente ilustrativas.